Manuela Couto Falacho
Histórias de Viagem

Mais do que os lugares, são as pessoas que fazem as viagens

Uma das minhas atividades favoritas durante as viagens é descobrir histórias de vida. É ouvir pessoas. Foi com a utópica, porém muito nobre, ilusão de “dar voz a quem não tem” que há 10 anos entrei num curso de comunicação, sabendo bem que sou daqueles que ouvem mais do que falam.

Gosto de pessoas. De pessoas sem filtro, verdadeiras, que falam sem interesse. Que se limitam a contar episódios da sua vida, sem quererem ganhar nada com isso. Não esperam reconhecimento ou aplausos. Não querem protagonismo. Muitas delas não sabem sequer o porquê do interesse nas suas vidas tão simples.

Essas pessoas são as melhores. São as que nos inspiram a ser melhores. Não mais ricos ou mais reconhecidos, mas melhores. Melhores seres humanos. São as que nos fazem olhar o mundo de uma forma mais bonita e a repensar aquilo que realmente interessa.

Muitas vezes, esqueço-me dos hotéis onde estive, dos restaurantes onde comi ou do nome daquele doce de ovo muito bom que experimentei em Tomar. Mas não me esqueço das pessoas, das histórias, das gargalhadas e do brilho nos olhos de que me recebe de braços abertos e tem a generosidade de falar comigo, nem que seja durante dois minutos. E, não raras vezes, dois minutos é o tempo que temos.

Manuela Falancho

Não me esqueço do divertido senhor António que foi contrabandista com muito orgulho que me fez rir num banco de jardim com as suas histórias. Não me esqueço da sorridente Manuela Falancho, do Mercado do Peixe Seco na Nazaré, com as mãos marcadas por cicatrizes, que me ensinou o que era resiliência ainda que não o soubesse. Do mestre José Rito que me tranquilizou durante uma viagem de moliceiro e me distraiu, contando-me que a sua irmã tinha nascido a bordo de um, em plena ria de Aveiro.

Tenho muitas histórias que vos queria contar, sobre pessoas extraordinárias que mereciam ser aplaudidas de pé. No entanto, raramente o faço. Centro-me nos lugares, nos roteiros, nos hotéis…

Para mim, é um desafio encontrar as palavras certas. Nunca consigo passar para escrito o fascínio que sinto ao ouvir cada história, nunca encontro palavras boas o suficiente para honrar aquelas pessoas.

Ao mesmo tempo, debato-me com o facto de não querer esquecer. Não querer guardar para mim. Querer partilhar com vocês as histórias de vida que não podem ficar por contar.

Para honrar o tempo que as pessoas perderam comigo a contar-me as suas histórias e para honrar a criança que um dia disse que queria dar voz a quem não a tem, vou passar a fazê-lo mais frequentemente.

Em breve.

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1 Comment

  1. E fazes muito bem!

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