{"id":2113,"date":"2023-10-21T17:44:18","date_gmt":"2023-10-21T17:44:18","guid":{"rendered":"https:\/\/acachopa.com\/?p=2113"},"modified":"2023-10-21T18:20:26","modified_gmt":"2023-10-21T18:20:26","slug":"parem-de-tirar-fotos-de-criancas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acachopa.com\/en\/parem-de-tirar-fotos-de-criancas\/","title":{"rendered":"Queridos viajantes, parem de tirar fotos de pessoas como se fossem atra\u00e7\u00f5es tur\u00edsticas"},"content":{"rendered":"<p>H\u00e1 um fen\u00f3meno curioso que sempre me fez alguma confus\u00e3o: os viajantes que tiram fotografias de habitantes locais e as partilham, na busca incans\u00e1vel por likes, entre as fotos de paisagens e de monumentos. <strong>N\u00e3o \u00e9 que seja estranho fotografar pessoas, a quest\u00e3o \u00e9 que nunca fotografam um sueco, um alem\u00e3o, um italiano. Nunca! <\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Um viajante passa tr\u00eas semanas em It\u00e1lia e tudo que vai partilhar s\u00e3o fotos do coliseu, pratos generosos de massa e aquela antiga pizzaria de N\u00e1poles. Se vai a Paris, fotografa a Torre Eiffel e o Arco do Triunfo. Mas se a pessoa viaja para Guin\u00e9, podem esperar fotos de habitantes locais, especialmente crian\u00e7as.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Vamos supor que tenha sido pedida autoriza\u00e7\u00e3o para fotografar. E relembro que a autoriza\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode ser pedida a uma crian\u00e7a, que n\u00e3o pode dar consentimento informado, uma vez que n\u00e3o consegue compreender as implica\u00e7\u00f5es de uma fotografia aparentemente inofensiva. Mas, ainda que o consentimento tenha sido dado.. ainda assim, causa-me estranheza. <\/p>\n\n\n\n<p>Imaginem que v\u00e3o na rua com uma crian\u00e7a &#8211; pode ser vosso filho, vosso irm\u00e3o &#8211; e um marmanjo estrangeiro de 40 anos com uma c\u00e2mara na m\u00e3o vos aborda para tirar uma foto da crian\u00e7a&#8230; Achariam normal? <\/p>\n\n\n\n<p><strong>Se durante as nossas viagens a Londres nunca nos deu vontade de tirar a m\u00e1quina fotogr\u00e1fica da mochila para fazer um retrato de uma crian\u00e7a inglesa desconhecida que encontramos no metro, porque parece t\u00e3o banal faz\u00ea-lo quando viajamos para pa\u00edses em desenvolvimento?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A quest\u00e3o que eu levanto n\u00e3o est\u00e1 relacionada com a autoriza\u00e7\u00e3o. \u00c9 \u00f3bvio que a autoriza\u00e7\u00e3o tem de ser pedida.<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m n\u00e3o est\u00e1 relacionada com as boas inten\u00e7\u00f5es de quem fotografa. Alguns viajantes que admiro fazem-no, por esse motivo me aparecem tantas fotografias deste g\u00e9nero no feed, ao ponto de me fazer refletir sobre isto. A minha quest\u00e3o vai al\u00e9m de todo este processo \u00e9tico e \u00f3bvio, todo ele necess\u00e1rio em primeira inst\u00e2ncia. <\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-full\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"500\" height=\"409\" src=\"https:\/\/acachopa.com\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/salvador-branco.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-2121\" title=\"\" srcset=\"https:\/\/acachopa.com\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/salvador-branco.png 500w, https:\/\/acachopa.com\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/salvador-branco-300x245.png 300w, https:\/\/acachopa.com\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/salvador-branco-73x60.png 73w\" sizes=\"(max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p><strong>\u00c9 sobre o que leva algu\u00e9m a querer faz\u00ea-lo. A achar que o processo de fotografar um desconhecido e partilhar a sua face \u00e9 um ato positivo. Quando n\u00e3o o faria na vossa rua. <\/strong>Volto a questionar: como se sentiriam se um turista desconhecido vos abordasse no meio do Chiado para vos tirar uma foto? Ou do vosso filho pequeno? Ainda que o fizesse de forma educada. N\u00e3o pensariam sobre qual seria a motiva\u00e7\u00e3o do turista? N\u00e3o se sentiriam estranhos com a abordagem?<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Esta<\/strong> <strong>fixa\u00e7\u00e3o por fotografar pessoas negras n\u00e3o ser\u00e1 uma forma moderna dos zool\u00f3gicos de humanos? <\/strong>Claro que h\u00e1 maior tato, maior respeito, maior no\u00e7\u00e3o &#8211; e at\u00e9 poder\u00e1 haver consentimento da pessoa fotografada, como j\u00e1 disse &#8211; mas a \u00e2nsia de fotografar e partilhar rostos de &#8220;povos n\u00e3o europeus&#8221; n\u00e3o \u00e9 muito semelhante \u00e0quela que levou a que&nbsp;ind\u00edgenas&nbsp;e&nbsp;negros africanos fossem exibidos em &#8220;exposi\u00e7\u00f5es etnol\u00f3gicas&#8221; no s\u00e9culo XIX? <\/p>\n\n\n\n<p>Entenda-se, n\u00e3o estou a comparar o ato de tirar uma foto com uma exposi\u00e7\u00e3o etnol\u00f3gica, que era um evento altamente degradante. Estou a pedir que reflitam sobre a motiva\u00e7\u00e3o por tr\u00e1s de ambos. <strong>Ser\u00e1 que a motiva\u00e7\u00e3o que levou a ambos n\u00e3o ser\u00e1 muito semelhante? <\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, estas fotos aparecem muitas vezes com legendas onde, com o disfarce da empatia, se perpetuam estere\u00f3tipos, se romantiza a pobreza e se desumaniza as pessoas. Com um discursos condescendente e o s\u00edndrome do salvador branco perpetuam-se ideias discriminat\u00f3rias enfeitadas com boas inten\u00e7\u00f5es. <\/p>\n\n\n\n<p>A representa\u00e7\u00e3o de \u00c1frica feita pelos meios de comunica\u00e7\u00e3o internacionais parece muitas vezes centrar-se no desastre ou na pobreza. A hashtag #TheAfricaTheMediaNeverShowsYou ilustrou, h\u00e1 uns tempos, como a fotografia convencional afeta negativamente o continente africano. <\/p>\n\n\n\n<p>Com imagens partilhadas por africanos, a hashtag inclu\u00eda fotos da ind\u00fastria da moda \u00e0 ind\u00fastria cinematogr\u00e1fica, de praias a universidades, e de mesquitas antigas a hospitais modernos. As fotos partilhadas s\u00e3o uma alternativa \u00e0s fotos mais comuns sobre a pobreza e a fome em \u00c1frica. Que existe. Claro que existe. <\/p>\n\n\n\n<p>Importa acabar com o estereotipo de que todas as pessoas em pa\u00edses em desenvolvimento precisam da caridade do Ocidente. Dos Salvadores Brancos. Ainda que necessitem, ser\u00e1 que o melhor que podemos fazer \u00e9 retratar uma crian\u00e7a sorridente e dizer que existe felicidade na pobreza? Na fome? O melhor que podemos fazer \u00e9 adotar uma atitude paternalista, escrever uma legenda rom\u00e2ntica e expor uma crian\u00e7a em troca de likes? Quem se beneficia desta exposi\u00e7\u00e3o? Voc\u00eas querem mesmo ajudar pessoas ou querem apenas relatar &#8211; de uma forma extremamente romantizada &#8211; os seus problemas, para assim conseguirem likes? <\/p>\n\n\n\n<p><strong>Se o objetivo \u00e9 ajudar estas pessoas, o melhor \u00e9 proteg\u00ea-las e isso come\u00e7a com a prote\u00e7\u00e3o da sua privacidade. <\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Vamos tentar que estas fotos n\u00e3o contribuam apenas para o complexo de salvador branco. Os viajantes n\u00e3o s\u00e3o fotojornalistas em miss\u00e3o. A inten\u00e7\u00e3o por tr\u00e1s destas fotos nunca deve ser sobre quem as tira. <\/p>\n\n\n\n<p>Se o bom senso nos impede sequer de ponderar tirar fotografias \u00e0s crian\u00e7as que brincam no parque infantil ao lado de casa, tamb\u00e9m nos devia impedir de fotografar uma crian\u00e7a que brinca num pa\u00eds em desenvolvimento. N\u00e3o pode haver dois pesos e duas medidas. Tragam fotografias das paisagem, das comidas e da cultura, mas <strong>deixem as pessoas em paz.<\/strong><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 um fen\u00f3meno curioso que sempre me fez alguma confus\u00e3o: os viajantes que tiram fotografias de habitantes locais e as partilham, na busca incans\u00e1vel por likes, entre as fotos de paisagens e de monumentos. 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